domingo, 13 de Setembro de 2009

Desenhos que as Crianças Fazem


Os desenhos que as crianças fazem são palavras que podem expressar dor, descoberta e esperança.
Para as crianças, desenhar ou escrever sobre os seus desenhos torna-se uma forma de expressar os seus sentimentos para quem os quer ouvir.
Juntamente com os desenhos, os pequenos artistas incluíram uma pequena descrição pessoal que por um lado parecem explicar a parte psicológica da criança e por outro surge como legenda “evidente” do desenho, sendo um pouco o jogo do que “o que parece nem sempre é”... Todas as crianças têm uma história para contar!

A arte e as palavras são equiparadas pois são elas que estabelecem comunicação entre o mundo exterior e o mundo interior da criança. Para no entanto tentar entender as crianças não basta um desenho, mas uma sequência deles que mostre progressão e diferença. Aconselhamos que não devemos concluir nada sobre ninguém baseado apenas numa tentativa de uma imagem material ou fragmentos desta. O que a arte revela, ajuda profissionais e pais quanto ao método utilizado para favorecer à criança uma melhor vida possível.

Este trabalho foi construído por 2 etapas: uma sobre como desenha a criança explicando por idades as fases que a criança atravessa e outra dedicada aos adultos e a sua atitude face à expressão livre da criança.
Por fim, a conclusão refere opiniões pessoais referentes às observações feitas durante o estágio.

Como desenha a criança


As gravuras infantis são fundamentalmente a combinação de variadas formas (unidades): círculos, linhas, restas, pontos, borrões... o que nos dá ideia de movimento, unidade, ritmo... estas unidades podem variar em número e na maneira como se ligam entre si (empilhadas, unidas...). O modo como estas unidades se associam é interessante e tem como base dois grupos de investigação. Um grupo preocupa-se com as produções infantis, com as progressões de um estado de desenvolvimento para outro, enquanto que o outro se preocupa com a natureza da arte, com a composição ou com o modo como os arranjos de unidades alcançam mais harmonia, ritmo, etc...

Rudolf Arnheim centra-se no segundo grupo, na maneira como a arte se relaciona com a percepção visual. Ele propõe que aquilo que desenhamos não é mais do que uma réplica do original, que as unidades que escolhemos obedecem geralmente à estrutura do original. Por exemplo, a estrutura básica da figura humana é a posição vertical, é então esta verticalidade que a criança vai atribuir ao seu boneco.
Outro aspecto que sobressai neste autor é a unidade gráfica utilizada pelas crianças. Repare-se, que normalmente uma criança desenha quer pernas quer braços com as mesmas unidades gráficas (Figura 1). Este uso económico das formas tem como resultado uma sensação de unidade, que representa a descoberta de que a mesma unidade pode ser usada para mais que um objectivo.

Rhonda Kellogg vê nas garatujas um estádio de desenvolvimento. Este conceito de garatuja correspondente aos rabiscos tão frequentes utilizados pelas crianças mais pequenas e que estão associados à sua representação de objectos e pessoas.
Este autor pensa que em qualquer estádio as crianças respondem continuamente à presença de ordem numa forma. Elas experimentam vários rabiscos e combinações, embora as unidades que utilizem e repetem são as que possuem boa forma visual e equilíbrio (Figura 2). A procura de ordem e equilíbrio é portanto o factor mais importante para Kellogg. No entanto, ele atribui igual valor ao modo como os desenhos incorporam unidades que marcam os estados antecedentes, ou seja, as unidades anteriores podem tornar-se parte das posteriores.

Drora Booth, tal como Rhoda, acredita na procura de ordem como característica fundamental no ser humano. Esta deu especial importância aos esboços, pela forma como as crianças utilizam unidades básicas com linhas e pontos. Assim, através de várias observações nomeadamente ao trabalho das crianças com idades entre 4-5 anos, constatou que é frequente a repetição de padrões.
A figura seguinte (Figura 3) mostra-nos uma variedade de linhas-contorno. Algumas delas envolvem todo o corpo. A utilização de linhas envolventes permite obter um resultado muito mais artístico, mas note-se que esta prática requer alguma habilidade que estará relacionada com a idade da criança.

Conclusão, esta autora dá mais importância aos esboços, padrões do que ao próprio realismo dos desenhos até porque permite abrir novos horizontes, dando lugar à imaginação e criatividade, sem se cingir a coisas objectivas e estereotipadas da realidade.

Relativamente à horizontalidade/ verticalidade, normalmente, entre adultos, a horizontal é considerada como a linha-chão. No entanto, no mundo das crianças, isto não é tão óbvio, o ponto de referência não é o mesmo. Assim, e como cada criança é um caso, algumas poderão desenhar pessoas no mesmo plano ou posição, enquanto outras nos deixam com a sensação de os bonecos estarem de cabeça para baixo ou suspensos no ar. A verdade é que certas crianças (consoante a idade) procedem assim dada a sua incapacidade de usar um ponto de referência global para todas as unidades num desenho.
Quando fazem o esboço de uma sala, por exemplo, trabalham de um pormenor para outro, não considerando um conjunto de pormenores como um todo. Portando, só quando as crianças conseguirem lidar com duplas relações é que estarão aptas a considerar um ponto de referência mais distante.

No que respeita às fronteiras, barreiras e espaços, estes fornecem um meio para descrever diferenças entre padrões. Quando as crianças omitem certas partes do corpo, é vulgar pensar-se que a criança não terá uma total percepção do mundo. No entanto, a razão para tal não será a dificuldade de as incluir num qualquer processo de construção? Pois é, se a criança fizer um boneco apenas com a linha envolvente, é normal que não sejam incluídos braços ou dedos! Porém, se a criança mesmo assim os desenhar, o resultado poderá ser um pouco bizarro.
Deste modo, a causa da não inclusão de certas partes do corpo poderá dever-se à natureza da linha. No entanto, note-se que poderá ter outras explicações, de foro emocional e psicológico.

A sequência e direcção são aspectos importantes de várias actividades e surgem como instrumentos muito necessários para a análise do trabalho infantil. Alguma desta aprendizagem (o pai com ou sem barba, a mãe com ou sem chapéu) é considerada de reconhecimento de identidade. Parte dela, a aprendizagem de palavras, fotos, etc... é designada por aprendizagem de equivalentes (que podem estar relacionados uns com os outros), por exemplo, “a” e “A” simbolizam o mesmo conjunto de sons.
Por outro lado, poder-se-á falar de produção ou invenção de equivalentes no mundo infantil, por exemplo, uma criança dizer “A árvore foi coberta de madeira” ou “Estou toda musculada de energia”, não está a fazer mais que inventar equivalentes para exprimir vários assuntos. Agora põem-se a questão: Como se relaciona esta teoria como o desenho infantil? Bem, os desenhos das crianças constituem de facto equivalentes, na medida que contêm algumas propriedades do original, do real. No entanto, as propriedades variam de autor, e as exigências de um adulto não são as mesmas de uma criança.
Como equivalente, os desenhos têm outro traço importante: a ambiguidade, na medida em que dois ou mais equivalentes podem por vezes simbolizar a mesma coisa por exemplo, uma linha dois pontos ou um circulo podem simbolizar um nariz. Da mesma maneira que um equivalente pode representar varias coisas – um círculo pode representar uma bola, um nariz, uma pedra.
Já foi referido anteriormente que a criança desenha naturalmente. No entanto, o desenho desta vai, ao longo do seu desenvolvimento, sofrendo algumas alterações que poderão ser designadas por etapas/ fases mas não deixam de ser o reflexo da evolução do desenho da criança.
Vários autores abordam, nas suas obras, a questão referente à evolução do desenho da criança. No entanto, embora acabem todos por descrever o mesmo, o modo como conduzem o assunto, varia de autor para autor.
Ana salvador, autora da obra ”Conhecer a criança através do desenho”, descreve, especificamente, as várias etapas compreendidas na evolução do desenho da criança.
De acordo com a autora, embora todas as crianças sejam vítimas desta evolução, elas evoluem de maneiras diferentes. Relativamente a esta afirmação, existem causas subjacentes, nomeadamente as características que são próprias de cada criança bem como o ambiente que a rodeia.

A primeira etapa da evolução do desenho da criança tem o nome da Garatuja: este é o primeiro contacto que a criança tem com uma folha de papel e um lápis.
Neste primeiro contacto, a criança não desenha nada de concreto, apenas rabisca a folha de papel. O rabiscar tem uma explicação – a criança atravessa uma fase de imitação, ou seja, ela vê o adulto a escrever e quer imitá-lo. Esta imitação gráfica é um fim, tem muito significado para a criança na medida em que a execução de meros traços lhe dá a constatação de que, tal como os adultos, possui um poder e capacidade criadora.
Os primeiros desenhos da criança não devem ser vistos apenas como os primeiros, mas como uma manifestação da capacidade criadora da criança, da sua espontaneidade. A devida valorização destas primeiras criações da criança é bastante importante e tem como resultado o facto de realçar a auto estima e personalidade da criança.
À medida que a criança executa simples traços, ela evolui, apercebendo-se da existência de semelhanças entre os seus desenhos e os objectos reais.

O pequeno artista prepara-se para uma nova etapa: o realismo fortuito: a chegada a esta etapa deixa a criança maravilhada consigo mesma pelo facto de conseguir aproximar os seus desenhos a algo (meramente ocasional).
A criança dá agora uma interpretação aos seus desenhos. No entanto esta interpretação é flutuante dado que o mesmo desenho pode parecer isto ou aquilo, a criança decide agora desenhar algo que se pareça com algo.
O realismo é uma característica fundamental da crianças e do desenho que cria. Porém, ao tentar atingir esse fim, a criança irá confrontar-se com diversos obstáculos.

A etapa que aborda esta questão denomina-se por Realismo Falhado.
O primeiro obstáculo a superar é de carácter físico, se assim se poderá chamar. A criança já cria numa folha de papel, porém esta não domina os seus movimentos gráficos, não os controla. O que com isto se pretende dizer é que, embora a criança tenha representado mentalmente o que se pretende desenhar, ela tem uma certa dificuldade em transpor essa representação para a folha de papel. O problema é a transposição do que está na mente para a realidade.
Outro obstáculo, de carácter psíquico, é caracterizado pela descontinuidade da atenção. A criança está numa idade em que é assaltada pela falta de atenção e de concentração, devendo-se ao facto da criança, embora tendo conhecimento de todas as características do desenho em causa, se preocupar em representar os que, por algum motivo, são mais importantes: a emoção e a atenção tem certos elementos que levam a criança a esquecer-se de outros. Nesta situação, os adultos não devem pensar em regressão, os adultos não devem pensar em regressão mas sim em avanço: é deveras positivo que uma criança se dedique totalmente à integração de um novo elemento na sua criação.
Uma vez ultrapassadas estas dificuldades, o realismo da criança surge com toda a sua força. A criança prepara-se agora para atravessar a etapa do Realismo Intelectual.
Agora a criança vai desenhar o real, ou pelo menos o que para ela é real, ou pelo menos o que para ela é real. Sim, porque é importante frisar que a realidade da criança diferencia-se da de um adulto. Enquanto que os adultos, ao falarem de desenho representante da realidade, referem-se a uma autêntica fotografia, a criança refere-se ao desenho de determinado objecto onde basta estarem contidos todos os seus elementos e haver semelhanças para ser real: não é necessário uma autêntica cópia.

Mais uma vez, os elementos de maior relevância para a criança são realçados. É ao longo desta etapa que os adultos, no lugar de ajudarem, só cometem erros. Pode dizer-se que, por vezes, os adultos “cortam as pernas à criança”. O adulto rouba à criança toda a sua espontaneidade e imaginação que possui a partir do momento em que a incentiva a copiar. A liberdade para criar espontaneamente desaparece; surge então o hábito de, no lugar de criar, recriar; deixamos de ter o desenho livre para dar lugar a um desenho estereotipado… copiado. A liberdade e substituída pela imposição de um modelo. Será correcto tirar a uma criança o que de mais rico tem? Se aquele é o modo como a criança vê o objecto porquê impedi-la de o esboçar livremente?
Se nesta etapa a criança for devidamente apoiada, ela vai sentir que teve êxito. E precisamente deste sucesso, resultante do realismo intelectual, surge uma outra etapa: o Realismo Visual. Esta mudança ocorre, por norma, entre os oito e os nove anos de idade. A criança apercebe-se de certas qualidades que o desenho tem como a cor, a forma, a dimensão, a expressão…
Uma vez evoluído o seu desenho e superadas com sucesso todas as etapas, a criança consegue integrar num desenho todos os seus elementos.
No desenho da figura humana os elementos integrados são aqueles de maior importância e significado para a criança bem como para as diferentes etapas da sua vida. A folha de papel será agora o espelho da criança; a opinião que tem a cerca da sua própria imagem e projectada pelo desenho. Ao desenhar a figura humana expressa-se a imagem corporal, quer dizer, a concepção interior que o indivíduo tem do seu próprio corpo e das suas funções num mundo social e físico.
Arno Stern, autor da obra “ Uma nova compreensão da arte infantil” defende que compreender a arte infantil é saber porque se exprime a criança e o que exprime. É familiarizar-se com as manifestações especiais das quais, desde há alguns anos, muito se fala e muito uso se faz, delas frequentemente se ignorando quase tudo.
As manifestações especiais referidas pelo autor são um conjunto de acontecimentos que surgem ao longo de todo o processo de evolução, sofrido pela criança, processo este onde decorrem fases.
Em primeiro lugar, Arno Stern faz referência às diferenças existentes entre a arte infantil e a arte adulta.
A arte infantil é o meio de expressão da criança, ou seja, a criança apropria-se do desenho para comunicar, para se expressar. Na arte infantil a criança encontra um “ primeiro vocabulário” para se exprimir o que não pode verbalizar.
Ao contrário do que sucede com os adultos, a criança não pretende apenas recriar imagens, mas traduzir para uma folha de papel os sentimentos e pensamentos que a tomam no momento.
O autor explica que devemos permitir às criações infantis serem diferentes das dos adultos. Em vez de procurar inúteis pontos de comparação entre os dois domínios, insistamos, pelo contrário, no que as diferencia. Deixaremos assim a posição falsa donde geralmente se vê a infância e faremos pouco a pouco descobertas que ajudam a compreende-la.
O adulto, para compreender a arte infantil, deve começar por descer ao nível da criança, ou seja, deve afastar-se do seu mundo e do seu conceito de arte para se aproximar do mundo do pequeno artista.


Atitude do adulto face à expressão livre da criança


A expressão livre constitui um dos factores imprescindíveis para o desenvolvimento harmónico de um indivíduo.
Todos os adultos deviam dedicar-se a compreender as crianças com inteligência e sensibilidade através da arte.
Para desenvolver a criatividade as artes plásticas têm revelado uma eficácia crescente.
O conhecimento da criança baseia-se na observação do seu comportamento, desde o nascimento pois está relacionado com alguns antecedentes como o estado de saúde da mãe durante a gravidez, as condições ambientais em que foi gerada e factores hereditários.
Mesmo cada criança sendo um caso diferente, existem vários aspectos comuns. A criança revela-se através do que faz, pelo que os seus desenhos, pinturas e objectos devem ser observados com seriedade e nunca com falsas apreciações ou até exageradas manifestações de êxtase, decepção ou indiferença.
A criança sente tristeza perante a indiferença do adulto, mas também tornam-se insensíveis ao aplauso sistemático perante as suas pinturas. A única coisa que querem é que os levem a sério e para isso é preciso saber ler ou entender a pintura infantil para que não se cometam erros, muitas vezes causadores de graves perturbações, que na maioria dos casos são devidos à intervenção desastrosa dos adultos.
O mundo plástico da criança é estruturalmente diferente do adulto pois tem valores e leis particulares, características próprias segundo as várias fases da sua evolução.
Mas temos de ter cuidado para não paralisar e retardar a evolução plásticas infantil. Há certas perguntas tais como “Que é que vais pintar”, “Que é que pintaste?” ou “Que representa o teu desenho?” em que em nada simplificam, antes complicam a tarefa educativa.

A necessidade de ter uma ideia ou assunto, antes de começar a pintar, deriva de um hábito que vem de outras disciplinas escolares. Mas actividades espontâneas, como a pintura livre, o tema não é dado, nem imposto, muito menos obrigatório. Esses limites condicionariam a própria liberdade de expressão, sendo essa a faculdade que importa mais desenvolver. Assim a criança é livre de escolher o tema e fá-lo mais naturalmente. Por vezes, um pormenor plástico (uma cor, uma linha) é pretexto para desenvolver uma pintura que acaba por narrar uma pequena historia ou exprimir em imagem plástica um estado emocional.
Compete ao educador respeitar a evolução e criar condições para que ela se exprima livremente. Precipitar a evolução da criança, com a pressa de a transformar em adulto, é um dos erros mais frequentes com graves consequências. Deixemos a criança ser criança e crescer naturalmente. Ela precisa de tempo para amadurecer e tornar-se adulta.



Desde que a deixem exprimir-se livremente, ela projecta-se no que faz com um grau de autenticidade que se auto-retrata. Ser insensível a essa sua maneira espontânea de se manifestar, não respeitando sequer o auto-retrato que ela constantemente nos devolve na sua relação com o mundo, é não acreditar na criança, é pretender destruí-la e impedir que ela cresça e aprenda pelos próprios meios.
Quando a criança se exprime livremente, ninguém melhor que ela para responder pelo que faz, porque faz o que quer e é, a autora dos seus próprios actos, desenvolvendo, alem da auto-confiança, um elevado grau de responsabilização.
A criança não poderá responder inteiramente se esta se limita a fazer apenas o que a mandam. A educação que visa transformar a criança num ser obediente, passivo e submisso, fica muito aquém daquela que estimula no educando a vontade própria, o poder de iniciativa e a criatividade.
A criança não só desenvolve a imaginação e a sensibilidade, mas através da expressão livre, aprende a conhecer-se e a conhecer os outros, aceitando e respeitando a autenticidade de cada um ou o modo pessoal, cada um se exprime de acordo com as suas ideias, sentimentos e aspirações. É nesta base que é possível construir o diálogo com os outros, pois não só se confrontam ideais e aspirações mas também se definem objectivos e metas comuns. Quando as crianças já se conhecem bem, entre alunos da mesma sala com mais de dois anos de convívio, estão em condições de realizarem pinturas colectivas e de planificarem trabalhos de equipa. Assim a criança torna-se um ser responsável, cooperante e interventivo no meio em que está inserida.

A criatividade não foi considerada nas escolas, foi posta de lado e marginalizada. Foi observada como uma actividade exclusiva de seres especialmente dotados, os privilegiados. A escola de hoje procura estimular no aluno a criatividade, o prazer da descoberta, o espírito crítico e a capacidade de intervir pelos seus próprios meios. A criatividade desperta-se através do fazer, da experimentação constante, permite à criança descobrir o seu modo de agir e de se exprimir.
A experiência artística não emerge do vazio, mas reflecte a maneira de pensar e sentir do seu autor. Os seus pensamentos e sentimentos são resultados da reacção à experiência. Antigamente, os conceitos aplicados no desenho derivam mais das experiências e objectivos dos adultos do que das reais necessidades das crianças. No entanto, hoje em dia, atenta-se muito nas experiências vividas pela criança, como a força motivadora para a expressão. E quando digo experiências não me refiro apenas ao assunto, mas aos materiais que devem ser explorados pela criança, para que esta se aperceba que um material pode ter tantas formas quantas ela lhe atribuir. Isto não só criará condições para desenvolver a criatividade da criança, como lhe estimulará uma grande capacidade – a inteligência.
Neste campo, a tarefa do educador será a de criar situações que despertem a visão e a imaginação das crianças. Este tipo de experiências deverá “desviar” as crianças de quaisquer estereótipos, e levá-las a um comportamento criativo, excitante e produtivo.
A experiência artística tem um significado para cada criança, e a sua criatividade reflecte sempre o estado de desenvolvimento visual em que se encontra. Todos têm potencialidades de criar, sendo o desejo de o fazer, universal; todas as crianças são originais nas suas formas de percepção, nas suas experiências de vida e nas suas fantasias.
Serrabiscos e símbolos das crianças mais pequenas são manifestações significativas dos seus esforços para visualizar uma ideia. No entanto, à medida que a criança se desenvolve perceptualmente, adquire capacidades para mais uma complexa expressão criadora.
Em todas as idades e estádios de desenvolvimento visual das crianças, deve haver sempre uma força motivadora que consiste no apoio dado pelo educador, pais e outros adultos.
O estímulo positivo deve sempre acompanhar a criança na sua evolução, desde a utilização da arte como experiência pura de comunicação, até à descoberta das possibilidades que ela oferece de um natural e apropriado meio de expressão gráfica de ideias práticas.
Por outro lado, note-se que deverá estar presente em qualquer actividade de expressão, a liberdade de pensar e sentir, pois sem este clima não é possível produzir. Assim a criança não é privada da oportunidade de reagir a um nível pessoal, se se exprimir como ser único no mundo.
Em relação aos desenhos propriamente ditos, é bom propor às crianças, desde cedo, a execução de trabalhos, inventando “padrões”, tarefa que revela certas faculdades intelectuais e assim desenvolver a criatividade. É bom também pedir à criança para juntar várias formas num certo número de grupos sem copiar nenhuma das formas dadas, mas mantendo as suas características gerais.

É importante ter em conta que, jamais, em situação alguma, um educador sugira qualquer tipo de forma ou padrão de desenho, pois não estaria a fazer mais do que impor barreiras de imaginação à criança.
O espírito de invenção e de iniciativa que se liberta pela realização de actividades como desenhos, ajudará a desenvolver a personalidade da criança. Paralelamente, todos os materiais devem permitir uma iniciação à criatividade, tendo em conta o grau de desenvolvimento da motricidade, mentalidade e maturação visual da criança. Simplicidade e eficácia devem ser características essenciais dos meios de execução nas tecnologias a experimentar.
Se quisermos observar as crianças e tentar compreender os caminhos pelos quais ela se desenvolveu, poderemos então estimular a sua criatividade. Assim, podemos acelerar o seu desenvolvimento através do incremento de actividades criativas na sua aprendizagem. Por exemplo, o mundo exterior (pessoas, animais, plantas, objectos) proporciona possibilidades infinitas de exploração, que desenvolvem a sensibilidade e a imaginação. As crianças precisam de ser ajudadas a ver, a sentir e interpretar o mundo que as rodeia.
Só depois desta preparação poderemos então falar em “iniciação artística”. Imaginemos, por exemplo, se o professor chegar à sala e disser: “Façam um desenho”, sem os ter previamente estimulado. Qual será o resultado? O mais certo será que as crianças façam um trabalho banal ou até indiferente, não significativo da sua capacidade expressiva e personalidade. Ora, o que as crianças vão utilizar são estereótipos, resultado de uma motivação através de experiências.

Em suma, as crianças necessitam de ser orientadas e fortemente estimuladas no seu pensamento artístico. As suas ideias precisam de um incentivo permanente. Paralelamente, o objectivo do educador será estimular e desenvolver a capacidade criadora das suas crianças, expressando-se por meio de variados materiais. Este incentivo não é mais que ajudar as crianças a estabelecer uma forma de pensamento, baseada numa experiência possível da realidade que a rodeia.
Em relação às experiências com materiais, estes implicam experimentação, pesquisa e investigação plástica que a criança realiza de forma intensa. É bom que elas explorem todo o tipo de materiais que as rodeiam para as variadas actividades.
Em termos de desenho, digamos que há uma vasta área de investigação que ela pode fazer a nível de materiais. Por exemplo, se ela trabalhar o pincel, descobrirá a sua capacidade de manuseamento; se trabalhar a pintura vai entrar em contacto com materiais colorantes que sugerem muitas possibilidades de experimentação plástica. Neste caso, é possível fazer dos materiais um meio valioso de motivação da criança. Estas experiências terão que ser intercaladas com perguntas, tais como:
O que acontece quando duas cores se misturam?
Como poderemos obter determinada cor?
O que acontece se molhares o papel antes de desenhares?
O que aprendeste acerca do material que experimentaste?

Note-se que estas perguntas vão surgindo de acordo com as experiências realizadas.
A expressão livre da criança é uma actividade de extrema importância e riqueza, vista por profissionais, como um meio de desenvolvimento, expressão de sentimentos e elaboração de conflitos considerando-a como instrumento de medida, ou como meio de desenvolvimento de aspectos importantes da criança.
No entanto, a grande questão debatida neste domínio, converge para a atitude do adulto face à expressão livre da criança… os adultos cometem erros que têm consequências no futuro das crianças, na sua personalidade.
O adulto, acima de tudo, deve ter uma postura positiva e receptiva para com o que a criança desenha.
Quando nos referimos à atitude do adulto face à expressão infantil, não nos limitamos a fazer referência aos pais mas também a educadores e a todos aqueles que, de alguma forma, podem fomentar o desenho livre da criança, em casa e na escola.
A escola considera que o desenho é mais que uma forma de entreter a criança, ela é conjuntamente com inúmeros factores, um determinante do desenvolvimento da criança.

No campo educacional, o desenho infantil serve de instrumento para medir aspectos importantes como a inteligência, a motricidade e o sentido estético. A inteligência será assim medida por meio de testes realizados através de desenhos. Os mais famosos testes, são os de Goodenough, mais tarde substituídos pelos de Mustenberg Koppitz, que uma vez renovados integram a questão da afectividade. Estes testes são compostos por vários itens relacionados com idade e maturação: os esperados, os comuns, os pouco comuns e os excepcionais. A esta valorização acrescenta-se uma analise da afectividade por meio de indicadores emocionais como a qualidade do desenho, pormenores que não surgem habitualmente e omissão de itens esperados. Todos estes factores serão analisados em conjunto e podemos tomar como exemplo a figura seguinte. (Figura 4)
Neste desenho estão contidos todos os itens desejados excepto os excepcionais. Anormal seria se nele estivessem os excepcionais com maior relevância no lugar dos restantes itens, pois não haveria uma justificação de carácter maturativo para este caso. É portanto aqui que a presença de indicadores emocionais se revela determinante.
Por este motivo, e muitos outros, a escola deve dispor de educadores com uma certa formação, bem como psicólogos. O objectivo é saber não só a capacidade intelectual de cada aluno, pois lhe valeria para classifica-lo, mas também, a partir desse dado, colocar em analise se o rendimento escolar é ou não adequado, e se não o é, porquê, e procurar melhorar as ajudas ou soluções para cada caso. Nesta tarefa, o desenho das crianças traz uma imformação de grande valor.

Respectivamente à motricidade, é também importante fazer referência ao apoio que deve ser prestado pelos educadores. Para que a criança tenha êxito nas suas criações, ela deve ser exercitada, de forma a usar correctamente os seus movimentos, controlando-os. Neste caso, a escola surge um pouco como fonte de estímulo para a criança e a sua motricidade.

Relativamente ao sentido estético, a intervenção da Pedagogia terá de ir mais no sentido de estimular a capacidade criadora do que impor cânones de beleza absolutos, uma vez que, em definitivo, são falsos. A escola comete por vezes erros graves no que respeita à fomentação do desenho livre na escola. Preocupam-se demasiado com a reunião de imformação, privando a criança de actividades que lhe dão prazer e, em simultâneo, contribuem para o seu desenvolvimento. Seria errado e absurdo pretender excluir a aquisição de conhecimentos como objectivo da educação, mas pensamos que é tão importante para a criança adquirir liberdade de expressão como reunir imformação pois ambas se complementam.
A questão da cópia ou modelo que se coloca perante a criança com a intenção desta copiar, ou seja interferir na criação da criança é também um erros que a escola cai frequentemente. Este erro pode ter repercussões negativas na vida e no trabalho futuro da criança. Ao impor uma cópia à criança o educador retira-lhe todas as capacidades que possui relativamente à criatividade, imaginação, espírito crítico, capacidade de tomar decisões…

Outra questão, ou erro, inclina-se para o facto dos educadores classificarem os desenhos das crianças. É injusto dizer, por meio de uma avaliação que a criança fez um desenho feio. Os desenhos não podem ser apreciados dessa forma defendendo Ana Salvador que o que a criança sente e expressa desta maneira não pode ser impedido só porque não nos agrada ou porque exprimem sentimentos negativos. A função do professor, neste caso, será procurar compreender a criança através destas comunicações e tentar ajuda-la a sair desta situação, mas nunca negar-lhe a possibilidade de mostrar pelo desenho que a angustia e amedronta.
Este desenho (Figura 5), feito por uma menina de seis anos, não foi classificado pela professora dado que esta não propôs uma finalidade de avaliação, mas tentou compreender e aproximar-se daquilo que assustava os seus alunos. A criança, ao passar o que sente para a folha de papel, torna-se capaz de dominar o medo que a domina.
Actualmente a sociedade precisa de ter indivíduos criativos capazes de dar uso à criatividade e liberdade de modo a promover o desenvolvimento da capacidade criadora infantil.
No campo da psicologia o desenho e o seu estudo despertaram manifestações mais claras e evidentes da capacidade criadora da criança. A partir da folha em branco, a criança cria personagens, objectos, animais, coloca-os em relação criando um ambiente, uma actividade. Projecta no seu desenho sentimentos de amor e de ódio, de agressividade, de comunicação afectuosa e de abandono.
Em primeiro lugar, é importante referir que os psicólogos consideram que o desenho infantil é, antes de tudo, um meio de expressão de sentimentos onde domina um certo valor projecto. Através de uma projecção, a criança exterioriza o que se mantém encarcerado no mais íntimo do seu ser.
O desenho livre é visto pelos psicólogos como uma técnica projectiva pois pede-se ao sujeito que desenhe livremente. Toda a estruturação do desenho da criança, sentimentos esses que podem ser de carácter positivo ou negativo.

Na figura seguinte (Figura 6), temos um desenho onde podemos observar que o mesmo ocupa apenas o sector superior da página, o que é característico de indivíduos imaginativos que tendem para a fantasia e imaginação. Desta forma, constatamos que este rapaz, de nove anos pretende transmitir uma fuga da realidade, que para este se revela bastante penosa. Foge da realidade que o assusta e refugia-se num mundo de certa forma imaginário, repleto de fantasia.
Porém interpretar um desenho com intenções projectivas não é assim tão fácil pois temos que, ao longo dessa análise, ter em conta certos valores como o traço, o tamanho e a localização dos assuntos, pois todos estes valores contêm informação bastante útil e valiosa.
O desenho, para os psicólogos tem ainda outra face, esta terapêutica. O desenho permite de certa forma a expressão de sentimentos que não poderiam ser expressos por meio de comportamentos, pois isto poderia conduzir à repreensão. Ao desenhar a criança descarrega para a folha de papel, descontraindo-se.
No que diz em relação à atitude dos pais, é fulcral começar por referir que compreender a arte infantil é afastar uma série de preconceitos e erros, por exemplo, a falta de interesse que revelam relativamente aos desenhos dos seus filhos. Na verdade os pais, no lugar de ignorarem a arte infantil devem valorizá-la tendo em conta o valor que a arte tem para a criança. No entanto corrigir este erro revela-se uma tarefa difícil. Os pais devem mostrar verdadeiro interesse para mais facilmente compreenderem e para isso torna-se necessário afastarem-se do seu mundo e dos conceitos de arte que o dominam: só descendo ao nível da criança, o adulto estará preparado para a perceber.


Em jeito de conclusão atrevo-me a pedir aos pais e educadores (meus futuros colegas) que deixem livre o desenho da criança, para que como excelente veículo de capacidade criadora da criança possa formar indivíduos mais capazes de exprimir-se e comunicar, pois assim melhorará o equilíbrio da sua personalidade.
Toda a experiência que tive, nomeadamente nos estágios que frequentei serviu para me guiar neste trabalho. Não incluí desenhos das crianças que observei mas baseei-me noutros retirados de livros. Agora com a ajuda deste trabalho confesso que já não vejo o desenho da criança da mesma forma, agora tento compreender e aceitar tudo o que numa folha aparecer.

Bibliografia

• Gonçalves, Eurico (1991) – “ A Arte descobre a Criança” – Raiz Editora
• Stern, Arno – “ Uma nova compreensão da Arte Infantil” – Livros Horizonte
• Salvador, Ana – “ Conhecer a criança através do Desenho”
• Debienne, Marie-Claire – “ O Desenho e a Criança” – Editora Cultrix
• Couric, Katie (1999)- “ Childhood Revealed- Art Expressing Pain, Discovery and Hope”- New York University Child Study Center- Editado por Harold S. Koplewicz e Robin F. Goodman-Abrams

1 comentário:

  1. EU CONHEÇO UMA MENINA QUE NAO FAZ O NARIZ DE PESSOAS O QUE SIGNIFICA???
    ME RESPONDA !!!
    CELULA.EXERCITO@GMAIL.COM

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